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Gestão de Resíduos Sólidos em grandes eventos: como funciona?

O Blog da Polen é um espaço exclusivamente dedicado ao compartilhamento, divulgação e publicação de notícias, artigos, colunas e relatórios sobre o universo dos resíduos sólidos no Brasil e no mundo. Aqui você encontrará conteúdo relevante, escrito por profissionais com experiência e vivência no setor. Dentre as pautas a serem abordadas, estão: guias de boas-práticas na gestão de resíduos; legislação e regulação do setor; novas tecnologias, soluções e aplicações para o reaproveitamento, reuso e reciclagem dos resíduos; economia-circular; logística-reversa e muito mais!

Gestão de Resíduos Sólidos em grandes eventos: como funciona?

Resíduos de copos sendo reciclados pela Heineken em evento
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Para destrincharmos o tema, convidamos Marianna Albergaria . Bióloga, Mestre em Engenharia Urbana e Ambiental pela PUC-Rio, Pós Graduada em Meio Ambiente pela COPPE/UFRJ e Consultora de Vendas da POLEN, possui experiência de mais de 7 anos na área de gerenciamento de resíduos. Neste texto, ela analisará a importância do gerenciamento dos resíduos sólidos em grandes eventos através da coleta seletiva, integração dos envolvidos durante todo o processo de gestão dos resíduos gerados e mapeamento de ações facilitadoras e limitadoras frente à gestão integrada dos materiais. Assim, descrevemos as medidas de gestão já utilizadas em eventos esportivos e culturais, como práticas passíveis de serem aplicadas futuramente em outros eventos, guardadas às devidas particularidades locais de cada um dos espaços e a quantidade de público envolvido.

O cenário da coleta seletiva no Brasil

Utilizo para esta discussão, assim como utilizei em minha Dissertação de Mestrado, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/10), como base para refletir sobre alguns conceitos e legislação a ser cumprida, considerando que, mesmo após sete anos de sua publicação, ainda não foi efetivada em sua totalidade em nosso país. A PNRS, um manual de regras, significados e incentivos de boas práticas, cuja finalidade é regulamentar toda a gestão de resíduos do Brasil.

Depois de duas décadas de tramitação em processo legislativo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos – Lei n° 12.305/2010 e sua regulamentação, o Decreto n° 7.404, de 23 de Dezembro de 2010 – configura-se em uma oportunidade de mudança de paradigma para a sociedade brasileira. Não obstante, o horizonte de implantação deste conjunto de instrumentos importantes esteja estimado a se efetivar em torno de mais duas décadas. O que é lamentável, tendo em vista a urgência de ações socioambientalmente corretas que evitariam a degradação do meio em que vivemos.

A “gestão integrada de resíduos sólidos é o conjunto de ações voltadas para a busca de soluções para os resíduos sólidos, de forma a considerar as dimensões política, econômica, ambiental, cultural e social, com controle social e sob a premissa do desenvolvimento sustentável”. A Coleta Seletiva, aparece, aí, como um instrumento da PNRS, que significa a “coleta dos resíduos sólidos previamente segregados conforme sua constituição ou composição”. E muitos autores afirmam que a coleta seletiva deveria começar na origem do descarte do resíduo.

A prática da separação dos resíduos orgânicos (restos de alimentos, cascas de frutas, legumes, etc.) e dos resíduos inorgânicos (papéis, vidros, plásticos, metais, etc.) facilita a reciclagem e resulta em maior potencial de reaproveitamento e comercialização (IBGE, 2000).

Atualmente, a imagem abaixo representa o tipo de Coleta Seletiva que mais está presente em grandes eventos, o que chamo de Coleta Seletiva Simples. É sucinta, rápida e de fácil assimilação. Os resíduos das lixeiras não recicláveis ou orgânicos são descartados diretamente, e os resíduos recicláveis passam por nova separação antes de serem encaminhados para a reciclagem. Esta separação mais refinada é necessária, pois facilita a reciclagem e aumenta o valor agregado de cada material.

Coleta Seletiva Simples

Coleta Seletiva Simples

Trata-se da redução de impactos negativos ao meio ambiente. Em consequência, incentivar a reciclagem é tão importante quanto aumentar o uso de fontes mais “limpas” de energia ou buscar recursos tecnológicos que filtrem os gases poluentes, impedindo sua chegada à atmosfera.

O Brasil vem apresentando um ótimo desempenho no mercado da reciclagem. Como é possível verificar no gráfico abaixo, disponível no site do Compromisso Empresarial para Reciclagem – CEMPRE.

Este desempenho positivo se deve ao modelo de reciclagem do Brasil. Aqui, grande parcela dos materiais enviados para reciclagem passa pelas mãos de catadores de materiais recicláveis. Os catadores de materiais recicláveis desempenham, portanto, um papel muito importante em nosso país. E a organização de catadores em associações, cooperativas e redes revela-se uma opção criativa e socialmente importante para gerar benefícios sociais, econômicos e ambientais.

“A PNRS estabelece, como um de seus objetivos, a integração dos catadores nas ações que envolvam a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, ou seja, no conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, a fim de minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos” SOUZA, PIAZONN E MELLO, 2012;

 

Gestão de Resíduos Sólidos em grandes eventos

Os megaeventos são acontecimentos, principalmente da área de entretenimentos, que interessam a um grande número de pessoas, por diversos motivos. Envolve gigantescos meios de produção e organização. Na maioria dos casos é necessária a construção de novas estruturas, sejam elas permanentes ou temporárias.

“Alvo de grandes investimentos, naturalmente atrai maior cobrança pela qualidade dos serviços prestados, pelo cumprimento das legislações vigentes e em adicional, a expectativa de ser um modelo de referencial. Sendo a indústria do entretenimento uma das que mais cresce no mundo, movimentando público de centenas de milhões todos os anos, cresce também o consumo e a geração de resíduos relacionada ao setor. Considerando todos os aspectos negativos da geração de “lixo”, num momento em que o país de adapta às novas exigências de sua Política Nacional de Resíduos Sólidos, este estudo tem relevância” ARANHA, D.C., 2011.

Os megaeventos, independentemente do tipo (esportivos, culturais, etc), geram como consequência o aumento no consumo de alimentos e bebidas, sobressaindo o descarte de embalagens, na sua maioria, feitas de papel, alumínio, vidro e plástico. Sendo a Coleta Seletiva um dos instrumentos conhecidos para segregação destes materiais na fonte geradora, acredito ser ela muito importante no processo de gestão de resíduos sólidos em eventos.

“Para o sucesso de ações ou campanhas ligadas à questão ambiental é fundamental que se inclua um plano de comunicação abrangendo todas as partes envolvidas. A implantação de coleta seletiva não requer gastos elevados, sendo fundamentalmente uma questão de planejamento, comunicação, treinamento e adequação de procedimentos. É, portanto, um projeto viável sob os aspectos econômico, técnico, administrativo e ambiental” ARANHA, D.C., 2011.

O que eu vivenciei sobre o assunto?

Falar sobre gerenciamento de resíduos em grandes eventos é um tema pertinente, e eu posso descrever o que vi e ouvi durante os meses que utilizei como observação para minha pesquisa de Mestrado.

A partir da experiência compartilhada com catadores de materiais recicláveis, durante a Copa das Confederações em 2013, no tocante à gestão dos resíduos sólidos urbanos, o Consórcio que administrava o Complexo de Entretenimentos Maracanã, passou a se interessar em pôr em prática o que determina a legislação ambiental referente à ação conjunta de tratamento e destinação adequada dos resíduos produzidos, incluindo, então, ações socioambientais como previstos na Lei n° 12.305/2010.

A PNRS, a Lei n° 12.305/2010, é conhecida por alguns dos catadores, que, entre os aspectos vantajosos desta Política, citam o mecanismo que rege e beneficia o catador, sob o ponto de vista da inserção social e econômica., como é possível verificar na fala do catador contratado pelo Consórcio Maracanã S.A:

“Foi boa, principalmente pelo mecanismo dela que beneficia o catador. Antes não tinha nenhuma política sobre isso, e a gente não tinha segurança, sem saber como ia ser o outro dia, porque cada dia podia ser um ganho diferente. Um dia ganhava melhor, no outro menos. E também a gente não tinha uma classe. Agora tem classe, tem representação (J.E.S.F, em 23/02/2015).

Este colaborador ressaltou o fato de a PNRS ter sido um grande passo para o estabelecimento de uma política que visa beneficiar a profissão do catador de resíduos sólidos recicláveis, ao estimular a obrigação do contrato de trabalho.

Desta forma houve, segundo os catadores, a formalização da profissão, bem como o fortalecimento do setor, com o estabelecimento de direitos e deveres. Antes da implementação deste instituto da PNRL, a renda per capita mensal era incerta para os catadores ali contratados, que dependiam diretamente da coleta esporádica.

Nas entrevistas, foi ressaltada a importância de terem um contrato, que possibilitou o trabalho assalariado, com um ganho mensal garantido e os benefícios inerentes ao trabalho de carteira assinada:

“O Maracanã dá o salário todo mês certo pelo contrato, isso dá segurança” (R.C.S, em 23/02/2015) e  “O principal é que o trabalho passou a ser por contrato, que deu mais segurança ao catador que trabalha junto da cooperativa. Antes, era sem contrato, então não tinha segurança de que o trabalho e o ganho de dinheiro continuariam. O contrato fortaleceu o catador” (L.C.F.B, em 23/02/2015).

Os catadores, portanto, enfatizaram que sua participação na gestão integrada de resíduos sólidos recicláveis no Estádio do Maracanã tornou-os peças necessárias e importantes do processo. E disseram que podem, ainda, realizar o trabalho de catação como um serviço particular fora do contrato, possibilitando um aumento de ganho além daquele da carteira de trabalho.

Para os catadores, os ganhos são principalmente de ordem financeira, pois o processo de inserção dos mesmos na cadeia produtiva os eleva à condição de parceiros produtivos, socialmente inseridos, como preceitua a legislação. Permite que permaneçam inseridos nos programas socioambientais, conforme prescreve a legislação, na busca da obtenção de condições para concorrerem, em igualdade de condições, com as empresas que exploram a área de materiais recicláveis.

Segundo o Complexo Maracanã, na época do estudo de gestão, alguns problemas foram enfrentados, como dificuldades para readequar a operação de acordo com sugestões propostas pelos catadores. Como, por exemplo, utilizar cores diferentes de sacos plásticos para todas as lixeiras, inclusive as dos banheiros, de modo a facilitar a separação dos resíduos recicláveis dos não-recicláveis.

Os catadores foram considerados parceiros importantes no processo de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos do Estádio, tornando-se atores fundamentais, pois foram extremamente eficientes e colaboradores. Como o objetivo sempre é obter a maior quantidade possível de recicláveis propuseram medidas para evitar a contaminação deste tipo de resíduo, o que tornou a operação mais limpa e eficiente.

Consideramos que ainda há muito a fazer, principalmente quando nos referimos à valorização e ao incentivo de ações como estas, pois encontramos poucos registros oficiais de contratação de catadores em parcerias para a gestão integrada de resíduos.

Enfrentamos ainda grandes barreiras na gestão dos resíduos, incluindo cartéis de compra de material reciclável, imposição de empresas privadas de recolhimento de lixo (reciclável ou orgânico) e falta de investimento e interesse do poder público. A nova lei – que já não é tão nova assim – as normas ISO e os próprios consumidores têm incentivado cada vez mais a realização de práticas sustentáveis em todos os setores, incluindo os eventos de entretenimento.

Muitos materiais já são reutilizados, mas ainda é necessário um grande trabalho de conscientização do público, não acham? O processo de gestão de resíduos sólidos em grandes eventos começa com as organizadoras, mas sem qualquer um dos atores envolvidos não é possível acontecer. Todos são importantes – usuários, catadores de material reciclado, recicladora, etc. Assim, ainda há muito esforço e trabalho a ser desenvolvido, muitas parcerias e resíduos sólidos que deverão ser ambientalmente dispostos!

Entendeu melhor a gestão de resíduos sólidos em grandes eventos? Ficou com alguma dúvida? Deixe sua opinião nos comentários!

 

Créditos: g1.globo.com, multishow.globo.com, cempre.org.br.

2 comentários

  1. Dihan carlos disse:

    Parabéns pelo artigo!
    As informações passadas por este artigo enriquece e amplia nosso pouco conhecimento.
    Sou apaixonado por questões ambientais e esse artigo esclareceu algumas dúvidas referentes a gestão de resíduos sólidos e a legislação vigente!

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